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Os craques são mais geniais do que os números – 15/12/2022 – PVC

O ex-técnico francês Arsène Wenger divulgou o estudo mais rico desta Copa do Mundo. Aponta que 85% dos gols nascem pelos lados do campo. Atual diretor de desenvolvimento global do futebol, na Fifa, o treinador campeão inglês invicto pelo Arsenal está convicto de que o vencedor será quem tiver os melhores pontas.

Nesse caso, será a França. Dembélé e Mbappé são os melhores extremas do Mundial. A Argentina nem pontas escala. Sua linha de meio-campo tem dois meias abertos, De Paul na direita, Mac Allister na esquerda.

Outro estudo, menos científico, está no arquivo deste colunista. Dos 62 jogos da Copa, só 21 (34%) foram vencidos por quem teve mais posse de bola; 27 (43%) por quem ficou menos de metade do jogo trocando passes. Houve 14 empates.

A conta é inversa em relação às finalizações. Quem chuta mais a gols no Qatar ganha 43% das vezes, 35% são vitórias de quem arrisca menos ao gol e 22% foram as igualdades.

É preciso cuidado para não transformar estatística em superstição.

O Brasil foi soberano na posse de bola em todos os jogos, menos contra a Croácia. Na partida da eliminação, chutou 19 vezes, e os croatas, 8. Tite viu sua seleção acertar o alvo 11 vezes. Zlatko Dalic, só uma. Gol de Bruno Petkovic.

Na semifinal, a Croácia teve mais posse e chutes do que a Argentina. Perdeu de 3 a 0.

As contradições não inviabilizam os estudos.

Há situações em que o time grande não poderá abrir mão de atacar, o que não impede de se ver a França ganhar do Marrocos com apenas 42% de posse. A Argentina venceu a Croácia mantendo-se apenas 45% do tempo com a bola.

Se dependesse apenas do que mostram números contrapostos aos jogos, a França seria vencedora contra a Argentina na final. Tem os melhores pontas e só registrou supremacia na troca de passes contra Austrália e Tunísia. Chutou mais a gol do que a maioria dos adversários, menos contra os ingleses.

Os argentinos só não tiveram mais posse, nem finalizações, na semifinal contra a Croácia.

Não dá para cravar que o futebol anda nessa direção. Esses dados parecem mais ricos nos jogos eliminatórios. Dos quatro maiores campeonatos da Europa, Bayern, Napoli e Barcelona são líderes e têm o maior índice de bola no pé. A exceção é o Arsenal, primeiro colocado na tabela inglesa e quarto nesse critério, liderado pelo Manchester City, campeão das duas últimas temporadas usando a mesma estratégia da troca de passes.

No entanto, Guardiola perdeu a final da Liga dos Campeões para o Chelsea, em 2021, com 61% de posse e menos chutes a gol.

O Palmeiras ficou em quinto no Brasileiro, e o Flamengo ficou em sétimo na Libertadores, em bola no pé. Foram campeões.

Ganha quem faz mais gols. Simples assim. Há caminhos diferentes para chegar à vitória, modos diferentes de jogar bem.

O equilíbrio tão grande entre as seleções, resultado do conhecimento de jogadores que atuam na elite dos clubes da Europa e se espalham por seus países, aumenta a necessidade de tentar perceber o que funciona e o que dá errado.

Além de ter mais gols, esta Copa, jogada no fim do ano, volta a privilegiar quem tem os jogadores mais decisivos. Como se disse aqui logo na chegada ao Qatar, os melhores do mundo não brilharam nos Mundiais do século 21, pelo desgaste no fim das longas temporadas europeias. Agora, estão no meio delas.

O desafio é de estilos, mas também de gênios: Messi x Mbappé.


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Preocupação brasileira com melhor do mundo é estúpida – 11/12/2022 – PVC

Neymar estreou no Santos no dia 7 de março de 2009, aos 17 anos, sob uma pergunta: “Quando ele será o melhor do mundo?” Ficou maior de idade, chamado de menino Ney, foi pai, seguiu chamado de menino Ney, e ouvindo: “Quando o Brasil vai voltar a ter o melhor do mundo?”

Questão estúpida! Quem a repete somos nós, jornalistas.

A um questionamento neurótico, uma resposta nervosa: quando o Brasil for campeão de novo, ora!

Pode demorar, como se percebe pelo escandaloso fato de só um jogador de clube sul-americano ter feito gol nesta Copa. Dois do Campeonato Croata marcaram, Livaja e Bruno Petkovic.

Parece que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas o Brasil nunca foi campeão tendo mais convocados fora do que dentro do país. Em 2002, eram 13 de times brasileiros e 10 na Europa. Em 1994, 11 a 11. A primeira vez da seleção em Copas com um “estrangeiro” foi em 1982, Falcão, da Roma, e Dirceu, do Atlético de Madrid.

Só a França foi campeã tendo mais convocados no exterior. Futebol reflete cultura. Um jogador formado no Santos é diferente de alguém cuja formação terminou no Real Madrid. Rodrygo sempre será diferente de Neymar. Para o bem e para o mal.

Hoje, não dá para convocar quem joga o Brasileiro sem um ponto de interrogação na cabeça. Ninguém tem certeza de seu nível, principalmente depois desta Copa, em que Everton Ribeiro e Pedro não aproveitaram os poucos minutos que tiveram. Em que só um jogador da América do Sul fez gol.

Voltamos à observação neurótica. O Brasil não tem o melhor jogador do planeta desde Kaká, em 2007.

E que importância tem isso, diante do fato de que a seleção não ganha a Copa do Mundo há mais tempo?

Gustavo Kuerten foi o número um do ranking do tênis por 43 semanas, a última em novembro de 2001. O Brasil foi o primeiro no futebol em 30 de junho de 2002, quando venceu a Alemanha, em Yokohama.

Nunca mais depois disso.

Neymar não foi e não será o melhor do mundo, salvo se houver um acidente da natureza de fazê-lo ser maior do que Messi ou Mbappé numa hipotética conquista do Paris Saint-Germain na Liga dos Campeões. Ou se fizer uma Copa do Mundo como a de Messi no Qatar, daqui a quatro anos, aos 34.

Improvável.

O que torna a pergunta ainda mais tola.

Neymar está na história do futebol por diversos motivos. Ajudou o Santos a recuperar a Libertadores, foi campeão e artilheiro da Liga dos Campeões –o único junto a Messi e Cristiano Ronaldo em 11 anos– e a mais cara transferência de todos os tempos.

A França sofreu para ganhar da Inglaterra, seu jogo mais dolorido, vencido com Mbappé marcado e Griezmann dando o passe para Giroud decidir.

Nenhum francês está, neste momento, perguntando quando seu camisa 10 será eleito o melhor do mundo. A razão não é Benzema ter vencido a Bola de Ouro, da France Football, neste ano. A preocupação é ganhar o terceiro título.

A França é a favorita.

Apesar de Messi, o melhor jogador do século 21.


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Copa tem duelos dos tradicionais e uma zebra perigosa – 07/12/2022 – PVC

Seis dos oito classificados às quartas de final já disputaram a finalíssima da Copa do Mundo pelo menos uma vez. Brasil x Croácia, Argentina x Holanda, França x Inglaterra são os duelos dos tradicionais. Todos tiveram resultados inesperados, como a derrota da seleção brasileira para Camarões e a dos argentinos para a Arábia Saudita.

Portugal nunca chegou à decisão. O Marrocos é a única zebra.

Foi simbólica a vitória nos pênaltis sobre a Espanha, cinco meses após o massacre de Melilla, cidade autônoma espanhola no norte da África. Em 24 de junho, pelo menos 37 migrantes marroquinos foram mortos. O governo de Madri é acusado de financiar tropas de Rabat para dificultar a entrada de africanos na Europa.

Os marroquinos do norte odeiam mais os espanhóis do que os franceses. Nós, jornalistas, adoramos dizer que Copa do Mundo não é pátria de chuteiras. Não é.

Mas, em alguns casos, não cabe subestimar o sentimento de nação. A Croácia é um desses exemplos, porque declarou sua independência depois de longa guerra, apenas 30 anos atrás.

O lugar onde Modric morava na infância foi ocupado por tropas sérvias. Está na sua na memória e em seu coração.

O Marrocos é o quarto representante da África nas quartas de final e o primeiro árabe. Hakimi nasceu em Madri, cresceu nas divisões de base do Real e decidiu não jogar pela Espanha: “Senti que não era meu lugar. A maneira como eu vivia em casa era diferente, com cultura muçulmana”.

No Qatar, o Marrocos representa os árabes. Uma das maiores festas pela classificação contra a Espanha aconteceu em Melilla.

Não parece fácil o duelo Portugal x Marrocos, e o técnico português, Fernando Santos, alertou sobre isso. Há marroquinos em Doha apostando que seu país chegará às semifinais. Portugal é favorito.

Não custa brincar: da última vez que o pessoal do Marrocos resolveu invadir a Península Ibérica, passou por lá mais de 500 anos. Agora, precisam só de cinco dias e, depois, enfrentar a França, a quem eles realmente odeiam.

Se Portugal avançar, chegará à sua terceira semifinal como o único possível finalista inédito. Com Eusébio, em 1966, chegou em terceiro lugar. Com Cristiano Ronaldo, em 2006, em quarto.

O Brasil esteve na decisão sete vezes, a Argentina em cinco, França e Holanda em três, Inglaterra e Croácia em uma.

Dos oito candidatos restantes, só Argentina, Brasil e Inglaterra tiveram mais posse de bola em todas as partidas. Nesta Copa, isso parece ser, ao mesmo tempo, demonstração de força e risco de cair numa arapuca. Se você quer seu time no ataque, impositivo, ele precisa empurrar o adversário para trás —e isso se faz com seus jogadores na parte da frente do campo. Mas, aqui em Doha, só 37% das partidas são vencidas por quem controla o adversário trocando passes. A Espanha foi quem mais fez isso. Está fora.

Chutar a gol dá mais certo. Contando os empates, 44% das vezes quem ganha é quem finaliza mais. Dos classificados, o Brasil é o melhor nesse quesito. A Alemanha era a primeira colocada nesse critério e também está eliminada.

Nesta Copa, não dá para provar nenhuma teoria com base nas histórias e nas estatísticas. Nem a tese de que seria a Copa das zebras sobreviveu.

A não ser que o Marrocos resolva invadir a Península Ibérica, como os mouros fizeram em 711 d.C.


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