Copa: Protestos no Qatar marcam a era do atleta empoderado – 10/12/2022 – Esporte

O acúmulo de controvérsias fora de campo na Copa de 2022 gerou um efeito inédito registrado nos gramados do Qatar. Como nunca em um Mundial, jogadores se posicionaram, protestaram e foram questionados sobre temas que extrapolam o esporte.

“Vivemos a era do atleta empoderado”, analisa Jules Boykoff, 52, cientista político estudioso do impacto das Copas e das Olimpíadas nos países-sede.

Ex-jogador de futebol, ele era um aspirante em 1990, quando estreou com a seleção dos EUA contra o Brasil, no Torneio de Toulon, na França. A equipe brasileira, que tinha Cafu, venceu por 2 a 0.

Boykoff guarda com orgulho o confronto com o capitão do penta numa das competições mais relevantes de categoria de base do futebol. A lembrança o faz refletir sobre como o futebol e seus atletas mudaram, segundo ele.

“Eu era muito ingênuo para me posicionar politicamente. Tenho até medo de pensar o que eu poderia ter dito se algum jornalista viesse me perguntar sobre questões políticas”, afirma.

Questionamentos como os que o capitão da seleção americana, Tyler Adams, ouviu de um jornalista do Irã, sobre discriminação racial nos EUA, ou os que muitos atletas tiveram que responder em relação à morte de operários migrantes no Qatar e à perseguição aos gays no país da Copa.

Boykoff vê como uma evolução o protesto organizado por jogadores da Alemanha, que taparam a boca após serem impedidos de usar braçadeira de capitão com as cores do arco-íris. Para ele, a independência financeira de atletas consagrados deu a eles liberdade para se posicionarem.

“Felizmente, eles não dependem tanto de dirigentes”, diz. “Ótimo, mas isso não pode ser uma obrigação. Eles precisam ter a liberdade de escolher. Se querem falar, vamos ouvi-los”, completa.

O sr. cita em artigos e entrevistas o termo “sportswashing“. O que precisamente quer dizer com isso? Sportswashing acontece quando um líder político usa o esporte e eventos como Copa e Olimpíadas para tentar se mostrar legítimo, ganhar importância geopolítica e melhorar sua reputação. O que ele quer é desviar a atenção de problemas reais crônicos, como violação de direitos humanos.

Com o esporte, é possível cria espaço para avanços geopolíticos e econômicos. Não necessariamente isso se materializa, mas pode acontecer. Você viu, por exemplo, que o Qatar acabou de assinar com os EUA um novo acordo militar durante Copa do Mundo.

Mas isso é um jogo arriscado também? Os países acabam sob holofote… Sim, o Qatar mostra que apostar no sportswashing pode ser um jogo arriscado. Quem sedia um grande evento, ao mesmo tempo em que deseja que não se fale de alguns assuntos, atrai atenção para eles. Vimos isso com relação às leis anti-LGBTQIA+ e às condições de trabalho no Qatar, que ganharam grande atenção da mídia internacional. Não há garantia de que o líder político terá o que quer.

Mas isso é quando falamos de resultados na imagem externa. Temos que lembrar que muitas vezes o objetivo maior está relacionado ao público interno.

Por quê? Vou dar um exemplo, os Jogos Olímpicos de 2014, em Sochi. Vladimir Putin conseguiu, um ano antes do evento, aprovar uma lei de propaganda anti-gay. Isso teve uma repercussão internacional péssima, principalmente nos EUA. Sim, mas na Rússia ele usou isso, com outras medidas, é verdade, para aumentar a sua popularidade.

Ele criou, segundo os pesquisadores locais, um novo senso de nacionalidade russa. Os Jogos Olímpicos de Inverno contribuíram para isso. Após o evento, Putin tinha aprovação de 86%, indicaram pesquisas. Popular, ele anexou a Crimeia.

Temos exemplos do uso de eventos como um trampolim para a popularidade de líderes tiranos que implementam ações como o início de uma guerra.

Ao mesmo tempo, temos que lembrar que sportswashing não é observado apenas em países autoritários. Ele acontece em nações democráticas como Brasil e EUA. Em Los Angeles, o prefeito diz que os Jogos de 2028 vão acabar com o problema dos sem-teto na cidade, o que não parece factível. No Rio, prometeram a despoluição da baía da Guanabara. Essa crítica do uso político dos eventos precisa ser ampliada aos países democráticos também.

Normalmente quando o evento começa, o assunto principal acaba sendo o destaque esportivo, o que ajuda a esconder os problemas dos países. É difícil competir com Messi fazendo gols, com a histórias que o futebol proporciona… Sim, eu sou um apaixonado pelo esporte e sei disso. Mas se você comparar com o passado, acredito que há uma evolução. Antigamente, essa tendência de foco total no jogo se confirmava 100%. A Copa do Qatar rompeu com isso de alguma maneira. Há uma cobertura crítica em relação ao país.

Acredito que estamos vendo algo diferente. Primeiro, porque há muitos problemas no Qatar. Existem repórteres lá e eles estão vendo e relatando isso para uma audiência global. A segunda razão é que tivemos jogadores de diferentes países falando sobre questões sensíveis do país.

Quando a Dinamarca anunciou que iria vestir uma camisa com uma mensagem de defesa dos direitos humanos isso captou atenção. Quando os alemães foram impedidos de usar a braçadeira com o arco-íris e taparam a boca em protesto, isso propagou algo que não era comum.

O que explica esse engajamento maior de alguns atletas em causas que extrapolam o futebol? Tem um fator que é a independência financeira que jogadores mais consagrados conquistaram. Felizmente, eles não dependem tanto de dirigentes.

Pego o exemplo do Messi, que é um atleta que não se posiciona e é direito dele ser assim, não há crítica nisso que vou falar. Ele ganha US$ 40 milhões (R$ 212 milhões) por ano de salário. Isso sem contar patrocínios e outras receitas. A equipe campeã da Copa vai receber US$ 42 milhões (R$ 222 milhões) no total, para dividir com todos do time, comissão técnica e funcionários. A gestão do prêmio é da federação do país.



A Copa no Qatar quebrou o padrão de alienação em relação às mazelas do país que sedia os grandes eventos esportivos

Então, esses atletas já não precisam do dinheiro do prêmio, por exemplo. O evento, sim, precisa deles, financeiramente falando. Com essa independência financeira vem a liberdade.

Tem outra questão. Existem figuras conhecidas que ficaram conhecidas por se posicionarem politicamente. Você pensa no Manuel Neuer e lembra de declarações dele sobre direitos LGBTQ+. Isso não é mais um tabu.

Estamos vivendo a era do empoderamento dos atletas. Hoje é esperado que eles se posicionem e que falem de temas não relacionados diretamente com o futebol.

O senhor vê isso como uma evolução? Vejo como algo positivo a liberdade e a segurança para eles falarem. Mas é preciso deixar claro que não deve ser uma obrigação. Muitos são bem assessorados, preparados e têm informação. Vamos ouvi-los.

Vimos na Copa o capitão da seleção americana, Tyler Adams, ser questionado por um jornalista do Irã sobre discriminação racial nos EUA. Isso é como as coisas são atualmente no esporte. Os jogadores precisam estar preparados para isso. Quando eu joguei não era assim.

Quando eu tinha 19 anos e jogava, era muito ingênuo para me posicionar. Tenho até medo de pensar o que eu poderia ter dito se algum jornalista viesse me perguntar sobre questões políticas (risos). Certamente, falaria algo bem ingênuo ou estúpido.

Não acredito que os atletas devam ser obrigados a falar ou até cobrados. Eles precisam ter a liberdade de escolher. Se querem falar, ótimo.

Em 2021, você escreveu um texto no New York Times afirmando que os Jogos Olímpicos de Tóquio deveriam ser cancelados. Há quem defenda um boicote ao Mundial. É o seu caso? É difícil [boicotar], não vou mentir. Eu acolho e sou simpático com quem propõe isso, mas eu estou assistindo. Acredito que é possível fazer as duas coisas, criticar o sistema e apoiar os atletas que estão fazendo o trabalho deles.

Não posso aceitar que esses executivos da Fifa, com toda a corrupção deles, decisões ruins e malfeitorias, serão bem-sucedidos em roubar o jogo de um fã de futebol como eu.

O Mundial de 1978, realizado pela ditadura militar da Argentina, e as Olimpíadas de Berlim, organizadas por Adolf Hitler, ficaram marcados por beneficiarem regimes autoritários. O senhor acredita que a Copa do Qatar será lembrada assim no futuro? É difícil fazer previsões, é perigoso. Mas temos lições desses exemplos citados. Você olha a cobertura da mídia na época e vê registros de complacência e até elogios aos personagens políticos. Hitler foi descrito pelo New York Times como “um dos maiores, se não o maior, líder político do mundo atualmente”. Isso é um trecho literal de um texto do jornal. Não é o que acontece no Qatar.

O que sabemos é que, após as Olimpíadas em Berlim, Hitler viu sua popularidade aumentar. Isso o fortaleceu para as ações que teve nos anos seguintes.

Nos dois casos, na Argentina e em Berlim, os líderes autoritários prometeram o melhor evento possível aos dirigentes esportivos e que nada aconteceria de ruim durante ele. Assim que a festa acabou, a repressão só aumentou nesses dois países. Como será no Qatar depois de a Fifa sair e as atenções do mundo se dispersarem?

Há uma queixa do Qatar de que existe muito preconceito por ser um país árabe. Sim, nisso eu tenho que concordar. Existe preconceito. Precisamos destacar que o Qatar fez algumas alterações na sua legislação trabalhista para estrangeiros, houve reformas que talvez não teríamos sem o Mundial. É difícil saber se essas mudanças farão diferença quando o torneio acabar. Voltamos a mesma pergunta que eu fiz antes: o que acontecerá quando os holofotes do mundo desviarem o foco para outro lugar?


RAIO-X

Jules Boykoff, 52 anos, professor da Pacific University, nos EUA, estudioso do impacto das Copas e da Olimpíadas nos países-sede, e ex-jogador de futebol.

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